Varejo alimentar em 2026:

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Por Big2be

| Publicado em 23 de agosto de 2026

Faturamento cresce, mas o volume cai. O que isso revela?

O varejo alimentar brasileiro continua movimentando cifras gigantescas. Em 2025, supermercados, atacarejos, minimercados, lojas de conveniência, hortifrutis e demais formatos somaram cerca de R$ 1,145 trilhão em faturamento, segundo o Ranking ABRAS 2026. O setor representa aproximadamente 9% do PIB brasileiro e recebe diariamente cerca de 30 milhões de consumidores.

O primeiro semestre de 2026 também terminou no campo positivo. O indicador de Consumo nos Lares da ABRAS registrou crescimento real acumulado de 2,49%, já descontada a inflação medida pelo IPCA.

Até aqui, a fotografia parece bastante confortável.

Mas quando aproximamos a lente e observamos o que está acontecendo dentro dos carrinhos, aparece outra informação importante. O consumidor continua gastando. Só que, em vários recortes, está levando menos produtos e visitando menos as lojas. E essa diferença muda bastante a forma como supermercados e atacarejos deveriam interpretar seus resultados.

O faturamento cresceu. O carrinho, nem tanto.

O Radar Scanntech de julho de 2026 mostra bem essa diferença.

Nas mesmas lojas, o faturamento do varejo alimentar cresceu 1,8% em relação a julho de 2025. Ao mesmo tempo, o preço médio avançou 4%, enquanto as unidades vendidas recuaram 2,1% e o fluxo nas lojas caiu 3%. Considerando também novas lojas, o faturamento total avançou 3,6%.

Em outras palavras: entrou mais dinheiro no caixa, mas isso não aconteceu porque mais produtos passaram pelo checkout.

Indicador — julho/26 x julho/25 Resultado
Faturamento nas mesmas lojas +1,8%
Preço médio +4,0%
Unidades vendidas -2,1%
Fluxo em loja -3,0%
Faturamento total, incluindo novas lojas +3,6%

Fonte: Radar Scanntech, julho de 2026.

A dinâmica também não começou em julho.

No primeiro semestre, dados do Radar Scanntech já apontavam crescimento de 2,1% no faturamento, com alta de 3,7% no preço médio e retração de 1,5% nas unidades vendidas. Em junho, especificamente, o faturamento cresceu 2,6%, enquanto as unidades recuaram 1,6%.

Isso não significa que o varejo alimentar esteja em retração generalizada.

Significa algo mais importante para quem administra uma operação:

faturamento, sozinho, não conta toda a história.

ABRAS mostra consumo em alta. Scanntech mostra unidades em queda. Os dados se contradizem?

Não.

ABRAS e Scanntech utilizam indicadores, bases e metodologias diferentes.

O índice de Consumo nos Lares da ABRAS acompanha o desempenho real do consumo nos diferentes formatos supermercadistas, deflacionado pelo IPCA. No primeiro semestre de 2026, esse indicador acumulou alta real de 2,49%.

Já o Radar Scanntech permite observar outras dimensões da venda, como faturamento, unidades, preço, fluxo, canais, categorias e comportamento nas mesmas lojas.

Vistos em conjunto, os dados sugerem um mercado que permanece resiliente, mas no qual o consumidor está mais seletivo na composição da compra.

Para o varejista, essa leitura é muito mais útil do que escolher apenas o indicador mais otimista ou o mais negativo.

A questão deixa de ser:

“Minha venda cresceu?”

E passa a ser:

“Por que ela cresceu?”

Preço, quantidade e frequência contam histórias diferentes

Imagine que uma rede tenha faturado 4% mais neste mês.

Existem diferentes caminhos para chegar ao mesmo resultado.

O cliente pode:

  • visitar mais vezes;
  • comprar mais unidades;
  • aumentar a cesta;
  • migrar para categorias de maior valor;
  • comprar os mesmos produtos por preços maiores;
  • responder a determinada promoção;
  • concentrar compras que antes fazia em outros estabelecimentos.

Ou pode acontecer justamente o contrário:

o consumidor visita menos, leva menos produtos, mas o aumento de preços mantém o faturamento nominal positivo.

Nos dois cenários, o relatório financeiro poderia mostrar crescimento.

O comportamento do cliente seria completamente diferente.

É por isso que análise de varejo não pode terminar na linha de faturamento.

O consumidor não está reduzindo tudo da mesma forma

Outro cuidado necessário é não transformar a retração média em uma explicação universal.

Em julho, por exemplo, Bebidas e Perecíveis cresceram 4,4% em faturamento, favorecidos inclusive por temperaturas acima da média para o período.

Água avançou 12,9% em unidades, energéticos 27,3% e isotônicos 21,4%.

Na direção oposta, a Mercearia Básica caiu 7,8% em faturamento, com retração simultânea de 2,6% no preço médio e 5,3% nas unidades vendidas. Café, arroz e açúcar estavam entre as categorias influenciadas pela queda de preços de commodities.

Essa diferença entre categorias revela uma questão fundamental:

não existe um único “consumidor de 2026”.

Existem ocasiões, necessidades, regiões, perfis de renda, famílias e comportamentos diferentes acontecendo simultaneamente.

E médias de mercado ajudam a entender o cenário, mas não substituem a análise da própria base de clientes.

Quando a gôndola está cheia e o produto não sai

Outro dado de julho chama atenção: a ruptura caiu para 4,4%, o menor nível da série histórica acompanhada pela Scanntech. Ao mesmo tempo, a não venda chegou a 11,4% e os dias de estoque alcançaram 46.

Na prática, isso mostra que, em muitos casos, o problema não estava simplesmente na falta de produto. Ele estava disponível na loja, mas não saiu no ritmo esperado.

Durante muito tempo, uma das grandes preocupações do varejo foi garantir que o item estivesse na gôndola. Essa continua sendo uma pergunta essencial, mas já não é suficiente. É preciso olhar também para outra questão: o produto disponível é realmente o que o cliente quer comprar, naquele preço, naquele momento e naquela loja?

Quando a resposta é não, o estoque começa a se transformar em custo. Por isso, decisões de abastecimento não podem ser analisadas isoladamente. Mix, preço, promoção e comportamento de compra precisam conversar para que a disponibilidade do produto se converta, de fato, em venda. Ter a gôndola cheia é importante. Ter a gôndola certa para aquele consumidor é ainda mais.

 

Mais promoção não necessariamente resolve o problema

O aumento da intensidade promocional também merece atenção. Em julho, 25,8% das vendas do varejo alimentar ocorreram sob algum tipo de promoção, com ações mais longas e descontos um pouco mais profundos. No atacarejo, esse percentual chegou a 31,6%.

O dado ajuda a levantar uma pergunta importante para o segundo semestre: quanto dessa venda promocional é realmente incremental?

Vender mais durante uma campanha não significa, necessariamente, que a promoção foi eficiente. Parte dessas compras pode ter acontecido de qualquer forma, apenas com um desconto que não seria necessário. Em outros casos, a ação pode antecipar uma compra que ocorreria alguns dias depois, deslocar o consumo de outro produto ou aumentar o faturamento às custas de margem.

Por isso, avaliar uma campanha apenas pelo volume vendido durante o período oferece uma visão incompleta. O mais relevante é entender quem respondeu à promoção, qual comportamento ela conseguiu alterar e o que aconteceu depois da ação.

É essa análise que ajuda a diferenciar uma promoção que apenas movimentou vendas de uma campanha que realmente gerou resultado para o negócio.

 

O que supermercados e atacarejos deveriam observar além do faturamento?

Os dados de mercado funcionam como sinal.

A resposta, porém, está dentro da própria operação.

Alguns indicadores ajudam a explicar muito melhor o que está acontecendo:

Indicador Pergunta que ele ajuda a responder
Frequência de compra O cliente está voltando com a mesma regularidade?
Intervalo entre compras Está levando mais tempo para retornar?
Unidades por compra O carrinho está ficando menor?
Ticket médio O aumento vem de quantidade ou preço?
Composição da cesta Quais categorias estão entrando ou saindo?
Clientes ativos A base que realmente compra está crescendo?
Clientes em queda de frequência Quem está começando a se afastar?
Clientes inativos Quantos deixaram de comprar e há quanto tempo?
Dependência promocional O cliente compra normalmente ou apenas diante de desconto?
Margem da campanha O aumento de venda compensou o incentivo concedido?

Nenhum desses indicadores, isoladamente, explica tudo.

É o cruzamento deles que começa a revelar comportamento.

Um cliente não precisa ficar inativo para mostrar que algo mudou

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes em uma estratégia de CRM. Um cliente pode continuar aparecendo como ativo e ainda assim já estar demonstrando sinais claros de afastamento.

Imagine alguém que costumava comprar quatro vezes por mês, depois passou para três e, em seguida, para duas. O faturamento anual desse cliente pode continuar relevante, mas o relacionamento já mudou.

Quando a empresa olha apenas para o faturamento agregado ou espera o cliente completar 60 ou 90 dias sem comprar para agir, normalmente percebe o problema tarde demais. A redução da frequência, o aumento do intervalo entre compras e mudanças na composição da cesta são sinais que podem aparecer muito antes da inatividade.

Por isso, CRM não deveria servir apenas para tentar recuperar quem já foi embora. Ele também precisa ajudar o varejista a identificar quem está mudando de comportamento enquanto ainda existe relacionamento.

 

O segundo semestre exige menos leitura de média e mais leitura de cliente

O varejo alimentar brasileiro continua enorme, relevante e resiliente. O ponto de atenção não está no crescimento do faturamento em si, mas em interpretar esse avanço automaticamente como sinal de que o consumo também está crescendo de forma saudável.

Os dados de 2026 mostram justamente por que essa leitura precisa ser mais cuidadosa. Preço, frequência, fluxo, quantidade de unidades, composição da cesta e intensidade promocional podem se movimentar em direções diferentes — e ainda assim o faturamento terminar o mês no positivo.

Para quem está planejando o segundo semestre, portanto, a pergunta não deveria ser apenas “quanto precisamos vender?”. É preciso entender também de onde esse crescimento deverá vir e qual comportamento queremos estimular.

Quais clientes têm potencial para aumentar a frequência? Quem já começou a comprar menos vezes? Que categorias estão perdendo espaço na cesta? Quanto do crescimento recente veio de preço, e quanto veio de consumo? Quais promoções realmente mudaram comportamento — e quais apenas concederam desconto para quem compraria de qualquer maneira?

Esse olhar também ajuda a identificar clientes que podem estar se afastando sem que o faturamento agregado deixe isso evidente. A média da operação pode continuar positiva enquanto parte da base reduz frequência, muda sua cesta ou aumenta o intervalo entre compras.

O faturamento mostra quanto foi vendido. Os dados de comportamento ajudam a explicar quem comprou, como comprou e o que está mudando nessa relação.

É essa leitura mais profunda que permite transformar números em decisões melhores para o varejo.

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